No último ano não tive oportunidade de repetir o Caminho de Santiago.
Mas a vida encarregou-se de me pôr a caminhar na mesma.
Os últimos 12 meses foram, talvez, uma das peregrinações mais importantes da minha vida.
Porque há caminhos que se fazem com os pés.
E há outros que se fazem por dentro.
E, tal como numa peregrinação, nunca se chega ao fim sem trazer consigo conclusões importantes —
sobre a vida, sobre os outros, e sobre nós.
Cada vez acredito mais que os momentos desafiantes arrastam consigo oportunidades de desenvolvimento e transformação.
Existem circunstâncias na nossa vida que fogem totalmente ao nosso controlo, com as quais temos dificuldade em lidar, que nos deixam um sentimento de injustiça agarrado ao peito —
e que nos empurram para um impulso inicial de baixar os braços, porque, no fim de contas, os nossos esforços parecem sempre inglórios perante aquilo que não conseguimos alcançar.
Essa sensação do divino — de pertença e de integração em algo que é maior do que nós — tem tanto de confortante como de desesperante.
E há alturas em que a única forma de seguir em frente
é processar e integrar aquilo que vivemos,
transformando-o em corolários, narrativas e conclusões.
Ao olhar para os últimos 12 meses, sinto que a vida, ao mesmo tempo que me tirou algum chão, também me trouxe 7 lições importantes.
E não deixo de pensar que, se essas conclusões tivessem surgido mais cedo — se eu a elas tivesse chegado há 12 anos — algumas coisas poderiam ter sido diferentes, e parte do dano talvez tivesse sido menor.
Mas depois lembro-me que na vida não existem coincidências.
Que as peças só se encaixam no momento certo.
E, por isso, encolho os ombros
e escrevo estas linhas com a esperança de que este seja o momento certo para alguém as ler —
e que, de alguma forma, possam contribuir para um momento difícil de quem, ao lê-las, encontre um fio condutor no sentido que já estava a procurar.
1. Se tiveres de escolher, escolhe a paz.
Não a felicidade.
A felicidade é um estado de bem-estar emocional.
Surge em momentos de prazer, de satisfação, de realização —
mas é, quase sempre, passageira.
Chega.
E vai.
Muitas vezes, é construída sobre escolhas e compromissos
que nem sempre respeitam aquilo que somos a longo prazo.
A paz é outra coisa.
Não é tão intensa,
nem tão imediata.
Mas é mais estável.
Mais silenciosa.
Mais verdadeira.
A paz nasce de um estado de equilíbrio interior —
quando deixamos de estar em conflito connosco,
com os outros,
e com aquilo que a vida é.
Há momentos em que conseguimos ter as duas.
Mas nem sempre.
E, muitas vezes, escolher a felicidade
é afastarmo-nos da paz.
Porque a felicidade pode pedir atalhos.
A paz pede coerência.
As escolhas orientadas apenas para a felicidade
trazem gratificação imediata —
mas, com o tempo, criam fissuras.
Pequenos desvios.
Pequenas concessões.
Pequenas perdas de nós.
E, quando damos por isso,
estamos longe de onde queríamos estar.
Por isso, não baseies a tua vida na felicidade.
O caminho que te aproxima de quem és
é o da paz.
E é sobre esse caminho
que a felicidade deve surgir —
não como destino,
mas como passagem.
Porque inverter esta lógica
leva-nos, quase sempre,
a um beco sem saída.
E, na maioria das vezes,
nem sabemos como lá chegámos.
2. Vais passar grande parte da vida à procura do amor,
mas é a amizade que te leva pela mão
ao longo do caminho.
Todos queremos amar alguém.
E ser amados.
Mesmo quando não o dizemos,
há em nós uma necessidade silenciosa
de encontrar uma cara metade —
como se isso tornasse a vida mais fácil,
mais inteira,
mais completa.
E, em parte, isso é verdade.
Mas não é a verdade toda.
A amizade é muitas vezes esquecida.
E, no entanto, sustenta mais do que imaginamos.
Esquecemo-nos de duas coisas essenciais:
que também é uma forma de amor,
e que pode ser tão — ou mais — importante do que ele.
Um amor sem amizade
não cria raízes.
E quando termina,
não sobra quase nada —
apenas o vazio entre aquilo que pensávamos que o outro era
e aquilo que afinal nunca foi.
A amizade é diferente.
É presença sem exigência.
É companhia sem peso.
É querer o bem do outro
sem precisar de nada em troca.
É alguém que fica.
E é isso que, ao longo da vida,
nos leva pela mão
mesmo quando o caminho se torna difícil.
Porque é na ausência de expectativa
que nasce a confiança.
E é nessa confiança
que encontramos segurança,
pertença,
e um lugar onde podemos, simplesmente, ser.
3. O respeito é uma ponte inegociável.
Ou tem alicerces sólidos nas duas margens,
ou não vale a pena atravessá-la.
Há relações que parecem próximas,
mas nunca chegam verdadeiramente a encontrar-se.
Ficam a meio caminho.
Suspensas.
Porque falta aquilo que sustenta tudo:
o respeito.
O respeito não é algo que se peça.
Nem algo que se imponha.
Revela-se.
Na forma como falamos.
Como ouvimos.
Como olhamos o outro —
mesmo quando não concordamos.
É fácil respeitar quando tudo está bem.
Mas o respeito verdadeiro
vê-se no desconforto.
Quando há diferença.
Quando há limite.
Quando é preciso escolher
entre ter razão
ou manter a relação inteira.
Uma ponte não se sustenta
apenas de um lado.
Se só um constrói,
se só um cuida,
ela acaba por ceder.
E quem fica no meio,
acaba sempre por cair.
Por isso, há pontes
que não devem ser atravessadas.
Porque sem respeito,
não há caminho possível entre dois.
Há apenas distância
disfarçada de proximidade.
4. Para saberes para onde vais,
olha com honestidade
para o caminho que já fizeste.
Há caminhos que não mudam —
só se repetem.
Mudam os nomes,
mudam os rostos,
mudam os contextos.
Mas, no fundo,
a história é a mesma.
As mesmas escolhas.
As mesmas reações.
Os mesmos desenlaces.
E, muitas vezes,
a sensação estranha
de já ter estado ali antes.
Porque enquanto não olharmos para trás com verdade,
continuamos a andar em círculo —
mesmo quando achamos que estamos a avançar.
O passado não serve para nos prender.
Serve para nos mostrar.
Para revelar padrões.
Para nos dar a oportunidade
de escolher diferente.
Mas isso exige consciência.
E a consciência, muitas vezes,
não é confortável.
Só quando conseguimos olhar para isso
sem fugir
é que algo pode mudar.
E, nesse momento,
o caminho deixa de se repetir.
E começa, finalmente,
a transformar-se.
5. Antes de seguires as palavras de alguém,
olha com atenção
para os passos que dá.
Nem sempre as pessoas alinham aquilo que dizem
com aquilo que verdadeiramente são.
E, muitas vezes,
o problema não é faltarem sinais.
É nós escolhermos não os ver.
Confiamos no que nos dizem.
Agarramo-nos à intenção.
À promessa.
E vamos adiando a evidência
na esperança de que, em algum momento,
as palavras coincidam com os gestos.
Mas nem sempre coincidem.
E é aí que nascem muitas desilusões.
Quando escolhemos acreditar
no que ouvimos,
ignorando aquilo que está à vista.
Os passos dizem sempre mais.
Porque falar é fácil.
Difícil é sustentar.
Por isso, antes de seguires alguém,
olha.
É nos passos
que a verdade se mostra.
6. Numa bifurcação do caminho,
a paixão é tão má conselheira
como um copo de vinho.
Não escolhemos por quem nos apaixonamos.
Mas escolhemos o que fazemos com isso.
Há uma diferença
entre sentir
e perder o controlo.
Tal como há uma diferença
entre beber com consciência
e deixar de saber parar.
Ambas podem trazer prazer.
Mas também podem tirar-nos a clareza.
E sem clareza,
decidir torna-se perigoso.
Porque o que parece certo no momento
nem sempre resiste ao dia seguinte.
E é aí que chega a ressaca.
No corpo.
Ou no coração.
A maturidade está na medida.
Na capacidade de sentir
sem deixar que seja isso a decidir por nós.
7. Nada fica como está.
E, sem aceitar isso,
é impossível amadurecer.
A vida tem um início, um meio e um fim.
E, dentro desse ciclo maior,
vamos atravessando outros mais pequenos
que seguem exatamente o mesmo movimento.
Começam.
Desenvolvem-se.
E terminam.
Relações.
Fases.
Versões de nós.
E, ainda assim,
insistimos na ideia do para sempre.
Mas é precisamente essa dinâmica
que define o que é viver.
Tudo acaba.
E é isso que dá valor a tudo.
Porque é na consciência da finitude
que nasce a presença.
Aproveitar enquanto é.
Deixar ir quando deixa de ser.
E continuar caminho.
Se estas palavras te encontraram no momento certo,
guarda-as.
E continua. Bom caminho! 💫



