Os últimos 12 meses foram dos mais desafiantes da minha vida.
Estruturas importantes foram abaladas, crenças desafiadas, valores questionados e o fio condutor quebrou sem possibilidade de reparo ou ligação ao novelo que anteriormente lhe dava vida.
O abalo foi transversal, aconteceu dentro e fora de mim. A terra tremeu, a torre ruiu. E se algumas das circunstâncias desse abalo me fugiram totalmente ao controlo, outras ruíram porque os alicerces daquilo que sou já há algum tempo pediam revisão e reforma.
Vivemos sempre num misto entre aquilo que nos acontece e aquilo que permitimos que aconteça. Alguns (como é o meu caso) encontram consolo na convicção profunda de que nada acontece por acaso.
A vida é feita de ciclos dentro de ciclos formando uma espiral contínua que começa muito antes do nosso nascimento e que nem sequer sabemos se termina.
Ou, emendando a mão: não termina. Porque a partir do momento em que deixamos qualquer espécie de legado, quem fomos vai deixar marcas de todo o tipo naqueles que aqui ficam depois de nós.
Nada disto aconteceu hoje… foi acontecendo. Mas há agora um impulso catártico em mim. Uma necessidade de expulsar o muco, fluidificar a fleuma, vomitar e purgar… e esse impulso não surge neste momento por coincidência.
Porque afinal, nada acontece por acaso.
Nas últimas semanas (meses talvez) tenho-me apercebido de que não sou só eu que estou congestionada, de nariz entupido e com os brônquios inflamados a quererem expelir o catarro que já não lhes pertence.
Afinal estamos no inverno e, de uma forma ou de outra, estamos — ou já estivemos — todos constipados.
E à medida que vou ouvindo os relatos das dores de cada um(a), dos corações entorpecidos, das emoções bloqueadas, da tristeza de uma clareza que evita chegar, da angústia de um encerramento nunca anunciado, vou ficando furiosa e apetece-me gritar.
Gritar como às vezes grito com os meus filhos quando estão constipados. Teimam em não se assoar e contrariam a tosse.
Enquanto o corpo não expulsar o que já não lhe pertence, a cura não encontra forma de processo. É para pôr para fora, forçar a tosse, auxiliar o processo de limpeza, deixar que o nosso corpo instintivo aja sem o filtro da mente racional.
Isto quando o nosso corpo está mal, mas também quando as nossas emoções estão afligidas, condicionadas ou de alguma forma foram danificadas.
O corpo responde aos vírus e tenta mitigá-los e expulsá-los, sejam eles de que tipo forem. Nós, seres humanos, que às vezes nos esquecemos que afinal somos animais, contrariamos os processos do corpo e da alma, desconsideramos os ciclos, as fases da vida e do ano, os sinais de alarme, as bandeiras de perigo.
E depois começamos a entristecer, a aborrecer, a arreliar, a resmungar, a ruminar, mas mesmo assim, quando a tosse vem, mandamo-la calar.
Até que… há um momento em que a vida se impõe e, a mal ou a bem, vais ter de vomitar.
Porque afinal, nada acontece por acaso.
Por isso mesmo toma nota: aquilo que te tem estado a acontecer não é uma coincidência.
E não quero com isto, de maneira nenhuma, dizer que nós somos responsáveis por tudo aquilo que nos acontece. Não somos.
Mas há coisas e momentos nas nossas vidas que nos estão fadados, que de alguma forma nos iriam sempre acontecer. Os tais ciclos em espiral que fazem de nós quem somos e que, a mal ou a bem, tecem esta teia de situações embaraçadas a que chamamos vida.
Porque afinal, nada acontece por acaso.
E, como tal, não é por acaso que andas num misto de latência impulsiva, de purga contrariada e lamento adormecido.
Sentes que precisas de descansar, mas o mundo pede-te para andares para a frente?
Queres abrir uma porta, mas correntes de ar anteriores fazem força para ela se fechar?
Queres enterrar um ciclo, mas a vida insiste em mostrar que esse processo ainda não acabou?
Se sim, tosse, espirra… deita tudo cá para fora. Fá-lo à tua maneira, mas não deixes de o fazer.
Os próximos 7 dias são de catarse.
É o momento de limpar, recolher e enterrar.
Depois será então tempo de começar a semear.



